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Estrelas dos musicais brilham na playlist Música de Cinema

16.06.2021

Nesta seleção, o cinema cantado viaja pelo mundo e através dos tempos

Fred Astaire e Ginger Rogers em cena no filme Ritmo Louco (Swing Time, 1936, de George Stevens, EUA) – RKO / The Kobal Collection

Por Fernanda Fava*

O primeiro filme sonoro da História do Cinema já era cantado: a obra estadunidense O Cantor de Jazz, de 1927, dirigido por Alan Crosland, não apenas era exibido com a banda sonora sincronizada em um disco de acetato, como também se tratava de um musical. Nele, o sonho do protagonista, Jakie, interpretado pelo cantor e ator Al Jolson, é se tornar um cantor de jazz de sucesso, apesar da discordância de sua família.

De lá para cá, o cinema cantado viajou ao redor do mundo e através dos tempos, unindo as imagens em movimento com canções memoráveis interpretadas ao vivo. A nova seleção musical da playlist Música de Cinema, do Sesc SP, presente nas plataformas de streaming, traz 19 faixas que nos permitem embarcar nesta história, trazendo canções de filmes musicais de diversos países.

Quando o assunto são os musicais, os grandes clássicos de Hollywood nos vêm imediatamente à cabeça, com sucessos de crítica e público como Cantando na Chuva, de 1952, dirigido por Gene Kelly e Stanley Donen, e as performances memoráveis como as de Fred Astaire e Ginger Rogers nos filmes da dupla. Ou mesmo raras aparições nas telonas, como a de Billie Holiday, no papel de uma camareira, cantando com Louis Armstrong no filme Nova Orleans, de 1947, dirigido por Arthur Lubin. Mas, no Brasil, os filmes musicais também fizeram muito sucesso. Marchinhas de carnaval ou sambas-canções eram, anteriormente, lançadas no cinema pelas chanchadas, antes de se tornarem sucesso nas rádios. O longa Alô! Alô! Carnaval, de 1936, dirigido por Adhemar Gonzaga e Wallace Downey, uma produção da companhia Cinédia, trazia uma grande lista de estrelas da música em seu elenco, entre eles a jovem Carmen Miranda, antes mesmo de se tornar a personagem que a levaria à fama no cinema de Hollywood e no mundo todo.

Os musicais também tiveram manifestações próprias em diversos países da América Latina na mesma época, sempre permeados por símbolos importantes da identidade nacional de cada país. No México, as comédias rancheras conquistavam o público com os principais sucessos de boleros e rumbas, que serviam ao propósito da narrativa dessas comédias rurais, enaltecendo os protagonistas, os charros, o estereótipo do cavaleiro, figura masculina dominante do imaginário mexicano. Um exemplo é o clássico Dois Tipos de Cuidados, de 1953, dirigido por Ismael Rodríguez, estrelando os cantores Jorge Negrete e Pedro Infante. O cinema dos nossos vizinhos argentinos também conquistou o mundo, num primeiro momento, principalmente por meio dos filmes que apresentavam números de tango, como os que ficaram célebres nas vozes de Carlos Gardel e Hugo del Carril.

O fado, em Portugal, e o flamenco, na Espanha, igualmente impulsionaram e foram impulsionados pelas obras cinematográficas de seus países. Amália Rodrigues, por exemplo, chegou a protagonizar alguns musicais. Da mesma forma que, algumas décadas mais tarde, seriam inesquecíveis as participações de importantes cantores e instrumentistas do flamenco, como Paco de Lucía e Camarón De La Isla, nas diversas obras em homenagem aos estilos deste gênero musical dirigidas por Carlos Saura. Mas menos conhecida é a história do cinema musical na Rússia e no Japão. Na antiga União Soviética, as canções eram importantes ferramentas narrativas para reafirmar os valores do regime socialista para grandes audiências. Já o cinema japonês produziu muitos musicais ao longo do tempo. Nos anos 1950, enquanto o mundo falava de Akira Kurosawa e Godzilla, o talento de cineastas como Toshio Sugie, nos estúdios Toho, passou despercebido fora do Japão, mas seus musicais, que traziam no elenco ídolos pop, como as garotas Misora Hibari, Chiemi Eri e Izumi Yukimura, tinham enorme aceitação doméstica.

Até mesmo a Nouvelle Vague francesa, nos anos 1960, soube usar o charme dos musicais de maneira autoral e, por vezes, irônica em suas obras. O longa Uma Mulher É Uma Mulher, de 1961, dirigido por Jean-Luc Godard, traz números musicais com a atriz Anna Karina na trilha do grande compositor dos filmes deste movimento, Michel Legrand. E como não mencionar a musa Catherine Deneuve cantando no musical de Jacques Demy, Duas Garotas Românticas, de 1967, cuja trilha também é de Legrand?

Na esteira dos musicais modernos, os números cantados continuariam a ser usados de maneiras criativas pelo cinema independente até os dias de hoje, como é o caso da obra de Lars von Trier, Dançando no Escuro, de 2000, com a cantora islandesa Bjork e outras personalidades da música. No Irã, a dupla de músicos Negar Shaghaghi e Ashkan Koshanejad, inclusive, criou, de forma independente e clandestina, um filme no limiar entre documentário e ficção, Ninguém Sabe dos Gatos Persas, de 2009, dirigido por Bahman Ghobadi. O longa fala de dois artistas da cena do rock underground de Teerã tentando escapar da censura do regime islâmico e é embalado pelas próprias canções do duo interpretadas para a película. No país, apresentações de rock são proibidas em locais públicos, e, com a seleção do filme para o festival de Cannes, a co-roteirista Roxana Saberi chegou a ser presa por espionagem na capital iraniana, uma semana antes de a obra receber o prêmio do júri na mostra Un Certain Regard.

Por fim, seria impossível falar sobre cinema musical sem citar os sucessos de Bollywood, cujas maiores bilheterias apostam em diversificados números de música e dança, verdadeiras superproduções indianas que investem em filmes épicos, elencos numerosos, variedade de cenário e figurino. É interessante perceber que boa parte dos números musicais, no entanto, são gravados por cantores e interpretados em playback pelos astros do elenco. É o caso do indicado ao Oscar de filme estrangeiro Lagaan: Era Uma Vez na Índia, de 2001, dirigido por Ashutosh Gowariker, com canções que ganharam popularidade dentro e fora da Índia, a exemplo da faixa Mitwa, incluída na playlist Música de Cinema. Não perca!

*Fernanda Fava é técnica de programação do Sesc Digital, jornalista e mestra em Cinema pelo Instituto de Artes da Unicamp.

Músicas da playlist:

1) Toot, Toot, Tootsie, Goodbye – interpretada por Al Jolson em O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927, Alan Crosland, Estados Unidos)
2) A Fine Romance – interpretada por Fred Astaire, Ginger Rogers, Nathaniel Shilkret em Ritmo Louco (Swing Time, 1936, de George Stevens, Estados Unidos)
3) Cantores do Rádio – interpretada por Carmen Miranda, Aurora Miranda e outros em Alô! Alô! Carnaval (1936, de Adhemar Gonzaga, Brasil)
4) Lullaby – interpretada por Lyubov Orlova em O Circo (Circus, 1936, de Grigori Aleksandrov, Rússia)
5) Clavel del Aire – interpretada por Hugo del Carril em O Astro do Tango (El Astro del Tango, 1940, de Luis Bayón Herrera, Argentina)
6) Do You Know What It Means to Miss New Orleans – interpretada por Billie Holiday e Louis Armstrong em Nova Orleans (New Orleans, 1947, de Arthur Lubin, Estados Unidos)
7) No Me Quieras Tanto – interpretada por Amália Rodrigues em Fado, História D’uma Cantadeira (1947, de Perdigão Queiroga, Portugal)
8) Singin’ In The Rain – interpretada por Gene Kelly em Cantando na Chuva (Singin’ In The Rain, 1952, de Gene Kelly e Stanley Donen, Estados Unidos)
9) Coplas – interpretada por Jorge Negrete e Pedro Infante em Dois Tipos de Cuidados (Dos Tipos de Cuidados, 1953, de Ismael Rodríguez, México)
10) Janken Musume – interpretada por Izumi Yukimura em So Young, So Bright (1955, de Toshio Sugie, Japão)
11) Chansons D’Angela – interpretada por Anna Karina em Uma Mulher É Uma Mulher (Une Femme Est Une Femme, 1961, de Jean-Luc Godard, França)
12) Nous Sommes Des Soeurs Jumelles – interpretada por Catherine Deneuve e François Dorléac em Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort, 1967, de Jacques Demy, França)
13) Le Bal – faixa instrumental composta por Vladimir Cosma para O Baile (Le Bal, 1983, Ettore Scola, França)
14) Las Muchachas de Copacabana – de Chico Buarque, interpretada por Elba Ramalho em Ópera do Malandro (1985, Ruy Guerra, Brasil)
15) Midley: Toma Que Toma – interpretada por Camarón De La Isla em Sevillanas (1992, de Carlos Saura, Espanha)
16) Bubamara – interpretada por Emir Kusturica e The No-Smoking Orchestra em Gata Preta, Gato Branco (Chat Noir, Chat Blanc, 1998, de Emir Kusturica, Sérvia)
17) I’ve Seen It All – interpretada por Bjork e Thom Yorke em Dançando no Escuro (Dancer In The Dark, 2000, de Lars von Trier, Dinamarca)
18) Mitwa – composta por A. R. Rahman e Javed Akhtar para o filme Lagaan: Era Uma Vez Na Índia (Lagaan, 2001, de Ashutosh Gowariker, Índia)
19) Persian Cats Opening Title – por Shervin Najafian para o filme Ninguém Sabe Dos Gatos Persas (No One Knows About The Persian Cats, 2009, de Bahman Ghobadi, Irã)

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