SESC - Serviço Social do Comércio

Nós Mulheres – No compasso delas

24.06.2021

Por Giovana Moraes Suzin*

Num contexto em que a indústria fonográfica é dominada pela figura masculina desde sua criação, as mulheres lutaram historicamente para deixar suas marcas em notas, ritmos e melodias. Além de cantar, muitas foram as que escreveram suas composições, elaborando letras e empunhando seus instrumentos para conceber novas cadências musicais.

Uma das compositoras brasileiras mais conhecidas é Chiquinha Gonzaga. Não era para menos: a pianista rompeu barreiras ainda no século XIX, tornando-se pioneira em diversas frentes. Neta de uma mulher escravizada, Chiquinha foi ativista pela causa abolicionista e se tornou uma das primeiras mulheres a ganhar a vida como musicista após ter se separado do marido – ato incomum para a época. Foi a primeira maestrina a reger uma orquestra no Brasil, quando ainda nem havia no dicionário o feminino da palavra maestro; sendo também a primeira a escrever composições para peças de teatro musicado, grande sucesso no entretenimento popular na virada do século. Depois de presenciar músicas suas sendo vendidas em partituras com nomes de outros autores, batalhou para a criação da primeira entidade protetora e arrecadadora de direitos autorais do país, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat), em 1917. Uma das suas composições mais conhecidas, a marchinha “Ô Abre Alas”, faz sucesso até hoje e não há um só carnaval que não ressoe nos lábios dos foliões e folionas.

Se Chiquinha abriu caminho e ajudou a definir os rumos da música brasileira nas primeiras décadas do século XX, as mulheres que vieram depois dela tiveram que continuar lutando para ver suas composições registradas e valorizadas. Dona Ivone Lara, sambista que é hoje devidamente reconhecida, teve que lançar suas canções iniciais sob o nome do primo; só mais tarde se tornou a primeira mulher a assinar um samba-enredo e a fazer parte da ala de compositores de uma escola.

Com o tempo, as musicistas foram ganhando espaço, mesmo que esse processo não tenha sido linear. Enquanto na cultura popular elas desempenharam papel de destaque como compositoras – como Dona Onete, Lia de Itamaracá, Dona Glorinha do Coco e Edith do Prato –, muitas ainda tiveram que enfrentar o preconceito e o machismo em outras cenas musicais. Foi o caso de Rosinha de Valença, exímia violonista que ajudou a lançar as bases da bossa nova, e também de Rita Lee, que, além de compor rock – gênero até hoje predominantemente masculino –, ainda foi pioneira ao tratar da sexualidade feminina em suas canções.

Cantoras consagradas também se aventuraram no mundo da composição, como Evinha, Elizeth Cardoso, Sandra de Sá, Alcione, Clara Nunes, Elba Ramalho e Elza Soares. Atualmente, felizmente, as mulheres ditam o andamento em diversos estilos musicais, do sertanejo ao forró, passando pelo rap, reggae e pop. A playlist “Nós Mulheres – No compasso delas” abre alas para fazer ecoar compositoras brasileiras que contribuíram e continuam contribuindo decisivamente para que as mulheres reverberem no mundo da música.

Com o objetivo de visibilizar e trazer reflexões sobre a produção musical de mulheres, suas realidades e vivências, esta playlist integra as ações digitais permanentes relacionadas ao projeto “Nós Tantas Outras”, que discute gênero, feminismos e os principais desafios que se apresentam às mulheres na contemporaneidade. O projeto é uma iniciativa do programa de Diversidade Cultural do Sesc São Paulo.

*Giovana Moraes Suzin é historiadora e jornalista. Além de seu lazer, fez da música seu objeto de pesquisa acadêmica e sua profissão. Atua como animadora cultural da área musical do Sesc Pompeia. 

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