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O feijão e o sonho: teatro na pandemia

08.06.2020

Cena da peça <i>Os gigantes da montanha</i>, do Grupo Galpão e com direção de Gabriel Villela / Foto
Cena da peça Os gigantes da montanha, do Grupo Galpão e com direção de Gabriel Villela / Foto

Artistas à míngua se reinventam em casa para continuar nos alimentando de sonhos, mas quem emergencialmente os proverá de feijão?

Por Dib Carneiro Neto*

Posso ser acusado de esperançoso incurável porque, afinal, o preço pago por isto que chamarei de conquista está alto demais. Mas, no período trágico de pandemia, sobretudo neste Brasil que elege governantes inimigos da arte, da cultura e da vida, talvez nunca se tenha compreendido com tamanha clareza qual é a essência de se fazer teatro: contar histórias. Sim, uma conquista. O teatro pode ser um misto pulsante de múltiplos recursos e linguagens, mas, no frigir dos ovos, seu eixo de sustentação é a narrativa. E narrar é romper barreiras. Contar para não morrer, como a princesa Sheherazade, de As mil e uma noites. Nesta nossa quarentena estendida, uma história por noite tem o poder de cura. Nos salva da depressão e do luto da tragédia. Nos salva da saudade. E nos alimenta com a alma do teatro: o exercício de imaginar. A fantasia de acreditar.

É o que vemos acontecer desde que, literalmente, se fecharam as portas de todas as salas de teatro: os contadores de histórias (leia-se também atores, dançarinos, músicos e todo e qualquer tipo de intérpretes) correram para a frente das câmeras de seus smartphones e nos inundaram com tudo o que de melhor sabem fazer: contar. Vivemos a “quarentena diegética”, por assim dizer. É teatro? Não, não é teatro. Substitui o teatro? Jamais. Não tem cheiro, não tem intimidade, não tem a fila do gargarejo, não tem olho no olho. É outra coisa. Mas são artistas desesperadamente contando suas histórias. Essa transposição forçada das linguagens cênicas para a improvisação limitante do audiovisual de feitio caseiro (incluindo aí a proliferação das chamadas “lives”) merecerá em breve um estudo sério, aprofundado, que começará assim: “Foi o que se pôde fazer à guisa de teatro naqueles tempos de arte ao vivo em suspensão, enquanto cientistas ruminavam a urgência de uma vacina possível”. Arte e ciência.

Mas, para além do alento e da conquista de se entender o teatro e a força de transformar histórias em arte, como sobreviver na dura realidade da pandemia sem bilheterias, sem incentivos governamentais, sem aportes emergenciais, sem cestas básicas, sem a inclusão do fazer artístico na categoria de atividade fundamental? Enquanto bravos e resilientes artistas arranjam seus jeitos de nos alimentar de sonhos, quem os nutre de feijão? Muito pouco tem sido feito concretamente. É quase tudo ainda ideia no papel. A cultura está à míngua. O programa de auxílio emergencial para trabalhadores da cultura do Congresso Nacional e da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, as linhas de crédito – que já estão sem verbas ou demoram muito a sair – para microempresas do programa Desenvolve SP, do governo estadual paulista, o seu similar federal, o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte, os trâmites exaustivos do Proac… Muita burocracia ainda.

Já se pensa em formas de reabrir os teatros, diminuindo a quantidade de poltronas, exigindo máscaras na plateia, entre outras medidas sanitárias básicas. Ok. Muito correto. Não há nada que combine mais com teatro do que máscaras, não é mesmo? Mas alguém pensou que não bastam protocolos de segurança apenas para o público? Será necessário garantir a segurança e o distanciamento também dos artistas e técnicos nos ensaios e durante a temporada. Novas regras para o palco terão de ser definidas e cobradas das produções (como testes de covid-19 semanais, distanciamento social no palco e atores stand-ins para as substituições, caso alguém adoeça). Que tal?

Como a pandemia já desempregou carradas de atores, cantores, bailarinos, técnicos, etc, pode ser que, com os teatros reabertos, a necessidade faça esses profissionais aceitarem voltar a trabalhar sem a devida proteção a ser garantida por suas produções, o que será péssimo para a continuação dos picos da doença. Imagino que, em projetos futuros a serem incentivados, os produtores tenham de incluir essas despesas de proteção dos seus profissionais de palco nas suas planilhas orçamentárias. Isso será previsto e aprovado? Já as outras medidas de segurança ao público deverão ser de responsabilidade das casas de espetáculos, ou seja, com custos que poderão facilmente acabar incorporados aos preços dos ingressos. Tudo isso precisa ser pensado aos pormenores e à exaustão.

Sigamos, pois. Que a luta será pesada e em prazo ainda a se perder de vista. Mas o teatro vai voltar. O teatro nunca morre. É só aguardar a Sheherazade da próxima noite. A história nossa de cada dia.


*Dib Carneiro Neto é jornalista, dramaturgo (Prêmio Shell 2008, por Salmo 91), crítico teatral no site Pecinha É a Vovozinha! e coautor de Imaginai! – O Teatro de Gabriel Villela (Edições Sesc São Paulo), laureado com o Prêmio Jabuti 2018 – Artes. 
 


Mais acima, Lutz Forster em Cravos, da companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch / Foto: Maarten Vanden Abeele. Aqui, cena do espetáculo As viúvas, do Grupo tapa, com direção de Sandra Corveloni / Foto: Claudinei Nakasoni


Saiba também:

Alinhado às medidas de enfrentamento ao novo coronavírus e atuante na ampliação de sua ação cultural, o Sesc estabeleceu uma diversa programação online: #EmCasaComSesc. Dentro disso, o teatro está presente com apresentações em todos os domingos, segundas, quartas e sextas-feiras, sempre às 21h30. De suas casas, importantes nomes da dramaturgia nacional encenam espetáculos adaptados para o digital, em formato de monólogo.

As transmissões podem ser assistidas pelo canal youtube.com/sescsp.

E as apresentações já realizadas podem ser conferidas clicando aqui.

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