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Política cultural no interior: entre urgências, ausências e potências

09.06.2020

Por Kátia P. Barelli e Mário Barroso*

Visão aérea do Sesc Sorocaba

Os impactos da Covid-19 no campo da Gestão Cultural têm sido dimensionados ainda de forma preliminar por gestores de instituições, tanto públicas quanto privadas. Trata-se da maior crise da nossa geração, ao menos até este momento. Não há mapeamento que dê conta de tantos desmontes, crises políticas, econômicas e de valores, atrelados consecutivamente a uma pandemia de proporções catastróficas. Certamente, como defendeu um poeta, teria que ser um mapa em escala global, do tamanho da realidade.

Se tais questões são prementes nas grandes metrópoles, em que a política cultural tende a ser mais estruturada, quem dirá no interior – e nos interiores – deste estado tão desigual, quanto o país afora.

No campo da Cultura, foram poucos os gestos de aproximação entre instituições de pequeno, médio e grande porte. Os que conseguiram reagir estão buscando e oferecendo respostas isoladas, mas ainda não se vê uma agenda de objetivos em comum. A falta de unidade, organização e ação coletiva vai da esfera pública à privada, e perpassa toda a gama de profissionais da Cultura, com raríssimas configurações de associativismo, cooperação e estabelecimento de redes transversais entre linguagens, ações, técnicos e prestadores de serviço. Quem já estava articulado, tenta manter a união. Quem estava isolado, permanece.

De um lado, nunca a imaginação e a inventividade do outro foi tão necessária para construir caminhos, reflexões e modelos de sobrevivência. É provável que no médio prazo se perceba um aumento no consumo de bens culturais de fruição em domicílio, geralmente de forma solitária (livros, plataformas streaming, música). De todo modo, as formas de convívio e de estar junto seguem fundamentais na reconstrução da civilidade, e cabe também a nós – gestores culturais – a missão de vislumbrar formas de fruição estética que possibilitem o estar junto – mesmo em tempos de pandemia.

O setor cultural já vinha sofrendo uma série de ameaças, simbólicas e econômicas, com sucessivos cortes na gestão pública da Cultura em todas as esferas, aumento do preconceito e discriminação em relação a manifestações culturais populares e festivas, como o carnaval e o funk. Os episódios de censura de exposições, espetáculos, manifestações de movimentos conservadores contra a liberdade de expressão artística, entre outras situações claras de retrocesso, permanecem expressos nas redes sociais.

O pensamento neoliberal contribuiu para sucatear o orçamento público e privado da cultura, com inúmeros cortes de programação, equipes e orçamento. No interior, alguns dos poucos equipamentos culturais fecharam suas portas antes mesmo da pandemia chegar, em especial na última década, o que prova que a crise vem de longe e só se intensificou com o novo coronavírus. 

Neste momento, ainda não há referências claras de como será a retomada das atividades culturais naquele mundo, de ontem, que esperamos pegar carona novamente. No entanto, é importante lembrar, nada voltará a ser como antes, já que a roda da história caminha para a frente. A única certeza, para todos os setores e especialmente para o cultural, é que a retomada será delicada, gradual e com novas práticas de acesso e características das ações.

Pontos de partida

Para seguir pensando e atuando, perguntas de primeira grandeza: o que faz sentido? Neste novo contexto, em que os desafios e os obstáculos são inúmeros, como seguir possibilitando aos criadores que tenham condições materiais para seguir no seu fundamental ofício da criação de outros mundos? Como garantir a captação de novos públicos e manter o elo com os frequentadores? Como propor ações que fomentem a repactuação de valores fundamentais, como os Direitos Humanos e a Diversidade Cultural? Como democratizar novos formatos em meio à exclusão digital? Como ser um espaço de respiro e cidadania em um meio digital cada vez mais poluído, superlotado, de propriedade de meia dúzia de provedores da economia do acesso?

Inspirados pelas incertezas, a intuição grita que devemos ser solidários, generosos e abertos. Cientes da história de país e de mundo que nos trouxe até aqui. Nossa resposta, reação, devem antes de tudo acolher o feminino e suas formas cooperativas de existência, e ter como guia a sabedoria das ancestralidades indígenas e negras, sempre que possível. Movimentos sociais e identitários não podem seguir mais uma vez excluídos e devem ser contemplados nos processos de proposição crítica e realização, com destaque equivalente ao da classe artística.

Como gestores culturais do Sesc Sorocaba, procuramos focar em diagnósticos e proposições pontuais, não como respostas definitivas, mas como exercício de relacionar pautas possíveis e problemas comuns de gestores culturais das mais variadas instituições.

Decidimos dividir as questões em dois tópicos: interior e global. Alguns pontos estão ao alcance dos gestores, outros são intangíveis pontualmente e merecem menção devido sua importância nas relações globais de interdependência de toda a cadeia produtiva. O que não temos a possibilidade direta de transformar não pode anular nosso poder de proposição e reação, enquanto gestores culturais.

Interior

Sobre ações online: alternativa x manutenção de desigualdades

O primeiro passo de muitas instituições foi ampliar a criação e disponibilização de conteúdo digital, dando um importante e fundamental passo no sentido de ampliar formas de fruição estética que dêem conta do terceiro milênio. Apesar de muito bem-vindas e absolutamente coerentes com o atual momento, para assistir a uma live, por exemplo, é necessário uma rede de internet estável e um pacote de dados considerável. Para instituições que trabalham com públicos de renda média e baixa, se por um lado as ações online cumprem um papel essencial, por outro, ainda não bastam para reduzir o abismo e as distorções de acesso que já existiam. 

Hoje o WhatsApp talvez seja a mídia social com potencial de acesso equivalente ao da televisão. Mapear públicos de interesse das instituições, construir novos mailings de acesso e disponibilizar o conteúdo em grupos de transmissão de programação pelo WhatsApp pode ser um caminho complementar importante. A disponibilização de conteúdos em pílulas de vídeo, áudios, textos, imagens, em arquivos de rápida transmissão e recepção de mensagens parece ser uma possibilidade menos excludente, ainda que um modelo a ser desbravado.

A contratação de atividades artísticas pontuais diretamente para as pessoas, em suas casas e apartamentos, é outra possibilidade de criar e recriar modos de fruição no período de distanciamento social. Intervenções solo ou em pequenos grupos (mantidos os cuidados necessários), com recursos audiovisuais para itinerar pelas ruas, como serenatas, poesias declamadas, exibições, intervenções artísticas, mapping, entre outros tantos formatos possíveis. 

Informalidade e fragilidade econômica do setor

Os impactos da pandemia na Economia Criativa são evidentes. Grande parte da rede de profissionais da Cultura vivem do giro de capital das contratações semanais e mensais, sobretudo os da base da pirâmide. Com a chegada abrupta da pandemia, cancelamentos e adiamentos foram inevitáveis, com efeitos devastadores na renda desses profissionais.

Além de honrar contratos que estavam em andamento, possibilitar adiantamentos para as ações agendadas, a contratação de artistas e profissionais para criação de conteúdo remoto e digital têm que ser ampliadas, com cursos, oficinas e workshops em EAD nas plataformas gratuitas (Skype, Zoom, Microsoft Teams); criação de podcasts, lives, entre outras formas de conteúdo audiovisual com técnicos, artistas, pesquisadores, artesãos, entre outros inúmeros profissionais da cadeia produtiva. 

No interior, se já eram poucas as formas de financiamento a um trabalho de criação artística e educativa, esse tipo de ação é ainda mais emergencial. Sabemos, não é a forma ideal, já que grande parte das produções e pesquisas não havia sido pensada para ocorrer no ambiente digital. Importante contar aqui com uma frente ampla de conscientização sobre a experimentação, que, se sempre bem-vinda na criação artística, aqui se torna a única possibilidade. Experimentar formatos digitais, sobretudo em uma tentativa de passar da gambiarra a estudo de linguagem e pesquisa: eis aí um desafio dos maiores.

Lealdade de público: geralmente generoso, o público da cultura é leal

O público das instituições culturais continua buscando interação e conteúdo com os equipamentos que já frequentava regularmente, nos mesmos formatos e linhas de atuação das instituições. Não se trata de fidelidade, conceito fechado, que pressupõe uma via de mão única, mas de lealdade de público. 

A criação e disponibilização de conteúdo dentro das linhas que a instituição já trabalhava, privilegiando os profissionais referenciados em suas ações são fundamentais para manter o elo, a relação de afeto e proximidade do público com as instituições. Por este motivo, é tão importante a digitalização dos acervos, com formatos acessíveis e de qualidade, e também equilibrar a proposição de ações em rede, com as ações locais. 

Continuar a fazer a economia criativa girar é importante, no entanto acervos de arte e documental seguem desprestigiados, tanto pelos públicos quanto pelas instituições. Propor a ativação digital do acervo contribui com a valorização da memória das instituições e amplifica sua preocupação com o patrimônio artístico e cultural.

Outro aspecto importante é manter a oferta, o acesso aos bens culturais diversos, como um remédio para os efeitos psíquicos da Covid-19. Ações que privilegiem a transversalidade da Cultura com o campo da Saúde e da Educação, por exemplo, tornam-se ainda mais necessárias. Vivências de meditação, diálogos sobre saberes tradicionais, terapias alternativas, discussões sobre inteligência emocional, são apenas algumas das inúmeras possibilidades.

Dados, mapeamentos e diagnósticos: como ciência, a cultura precisa de dados

A fragilidade de dados, informações e pesquisas no campo da Cultura é evidente, principalmente em cidades do interior do país. Se sistemas públicos importantes de mapeamento foram implementados com relativo sucesso, não tiveram suas finalizações e sistematizações necessárias.

O distanciamento social pede ainda mais a aproximação entre instituições culturais, públicas e privadas. A troca de informações, experiências, mapeamentos dos públicos, ampliam a compreensão em como se dão as ausências, os fluxos, as tendências e a frequência nas ações oferecidas. Tal mapeamento deve privilegiar a classe artística local, as iniciativas culturais, grupos e movimentos da cultura popular local e pode facilitar até mesmo o acesso aos auxílios emergenciais e a criação de tecnologia social local. 

Global

Da raiz para a mesa: o que a natureza tem a ensinar à cultura 

O princípio da incerteza e da imprevisibilidade é a pauta comum de todos os segmentos culturais e artísticos.

A imaginação, a criação e a inventividade são imprescindíveis para enfrentar os efeitos da pandemia. As respostas das instituições são tão urgentes quanto as reflexões e os planos de contingência e resiliência. As equipes devem permanecer mobilizadas remotamente para sistematizar as reflexões, ações e diagnósticos. Talvez esta seja a oportunidade mais rica para estruturar uma sobrevivência possível para todas e todos. 

Atuar em redes, de forma solidária e generosa, tornou-se a única possibilidade. Para fortalecer a copa desta grande árvore cultural, deve-se mirar para a raiz, aqui pensadas como o local, a cidade como próximo primeiro espaço possível para a retomada do convívio e das relações de civilidade. As relações e cruzamentos entre cultura, cidadania, educação e planejamento das cidades será vital para a retomada da sensação de pertencimento.

Ainda que essenciais, não se vê pactos federativos, convênios, acordos, programas e projetos partilhados pelos entes federados, salvo raras exceções. A proposição aqui aos gestores é estabelecer ações formativas, debates, rodas de conversa, com gestores públicos, técnicos e pesquisadores. Os espaços virtuais têm sido fundamentais para aproximações, como ferramenta para fomentar a troca de experiências, o diálogo e o estudo das possibilidades, a realização de parcerias, programas e ações conjuntas. 

A democratização dos meios de comunicação nunca foi tão urgente

As grandes corporações de mídia online aumentaram os lucros e, muitas, até mesmo os valores de assinaturas e planos durante a pandemia. Agora, a dependência das grandes corporações de conteúdo é uma questão de sobrevivência simbólica para as instituições culturais.   

As instituições devem estimular o debate sobre o papel dos grandes conglomerados de mídia online, serviços de streaming, entre outras plataformas. Afinal, muito do que é financiado por elas acaba disponibilizado “gratuitamente” na web. Uma postura de defesa do pequeno produtor é o aumento percentual da monetização nas veiculações. Essa pequena mudança traria um impacto positivo enorme, sobretudo para os artistas.

Outro destaque é investir em debates na democratização dos meios de comunicação. Com a popularização da internet, imaginou-se que as redes sociais dariam voz para todas as pessoas. Percebemos hoje que, mais do que voz, há um grande ruído, em que muitos falam sem ser ouvidos, outros tantos mentem e dissimulam, consciente e inconscientemente, e pouca responsabilidade há sobre o que é dito. Retomar aqui a ideia de uma verdadeira democratização dos meios de comunicação, em que haja espaço e o mínimo de segurança jurídica para responsabilizar o que é publicado.

Canais de televisão de universidades, centros culturais, grupos e comunidades nunca fizeram tanta falta, bem como as rádios comunitárias nas pequenas cidades, o fortalecimento de canais digitais locais, estrutura de banda larga com acesso gratuito nas comunidades. Preconizado desde pelo menos os anos 90, retomar este debate é fundamental para a esfera pública da Cultura e precisa voltar ao centro do debate, pois pode ser a solução do paradigma do apartheid digital na próxima década.

A arte é o sul: mirar para o futuro a partir dos interiores

Não haverá um novo normal, bem como não retornará o antigo normal. Há o hoje, batendo todos os dias na porta, nos lembrando o tanto que há para se fazer, se desejamos um outro normal possível. 

Os diagnósticos e proposições elencados apresentam algumas sentenças. Vale o pedido para não interpretar como mera generalização crítica e sim como disparadores de novas inspirações. 

A provocação desse texto é partilhar reflexões e caminhos entre gestores culturais, sobretudo do interior do estado de São Paulo, como um exercício que nos estimule a reagir com urgência e responsabilidade. Para que possamos amalgamar a esfera da problematização, do diagnóstico e da ação, tão fundamentais para a sobrevivência das instituições, públicos, artistas, técnicos e todos os demais profissionais da Cultura.

Kátia P. Barelli é gerente adjunta do Sesc Sorocaba e Mário Barroso é coordenador de programação do Sesc Sorocaba

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