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Sesc lança documentário Territórios de Resistência – Florestanias, Sertanias, Ribeirias

20.09.2021

No dia 30 de setembro, a partir das 19h, o Sesc São Paulo lança o documentário Territórios de Resistência – Florestanias, Sertanias, Ribeirias, na plataforma Sesc Digital, dentro da programaçãoCinema – #EmCasaComSesc, e no site do SescTV. Fruto de uma parceria entre o Sesc Ipiranga, o Museu do Ipiranga e a Universidade de São Paulo (USP), a obra parte do registro da última atividade realizada durante a Ocupação Museu do Ipiranga, em 2019, para ressignificar o trabalho na perspectiva do audiovisual.

O roteiro, estruturado em quatro partes – Narrativas em Disputa, Florestanias, Sertanias e Ribeirias –, evidencia o contínuo processo de exploração dos territórios e as violências incessantes para estabelecer um controle hegemônico que desconsidera os modos de existência, os direitos e saberes de seus habitantes, e discute o papel ativo dos espaços físico e simbólico do museu na construção de narrativas e memórias e nos processos de resistência. A obra conta com legendas em português e tradução em Libras.

Ocupação Museu do Ipiranga

As ocupações artísticas realizadas no Museu do Ipiranga entre 2018 e 2019 buscaram chamar a atenção da sociedade civil para o museu – fechado desde 2013 para restauro, com previsão de abertura em 2022, ano que marca o bicentenário da independência – e para a inclusão de memórias que foram apagadas do processo histórico. A programação foi norteada a partir do reconhecimento da falta de representatividade de diferentes grupos sociais e da predominância de uma narrativa hegemônica representada de forma simbólica, pelas pinturas e esculturas que integram o acervo do Museu. 

Territórios de Resistência, Narrativas em Disputa – Florestanias, Sertanias, Ribeirias, última ocupação artística do Museu do Ipiranga, foi concebida de forma colaborativa, envolvendo equipes do Sesc e do Museu sob a coordenação artística de Maria Thaís. A equipe de criação foi formada pela dramaturga Dione Carlos, os dramaturgos Murilo De Paula e Felipe de Moraes, pelos cantores Marlui Miranda, Sapopemba e Ana Flor de Carvalho, pelas atrizes Edi Cardoso, Gabriela Rabelo, Iléa Ferraz, Sandra Nanayna, os atores, Antonio Salvador e Walter Breda, e contou com a participação da liderança indígena David Karai Popygua, de um coro de jovens artistas da Escola Livre de Teatro de Santo André, da Fundação das Artes de São Caetano do Sul e do Projeto Vocacional.

As experimentações cênicas, que ocuparam o museu nos meses de maio a julho de 2019, se organizaram em um formato triplo, a partir de três territórios e dos seus modos de existência. Nomeados como florestanias, sertanias, ribeirias, os territórios foram relacionados a três obras do Acervo do Museu: Índio com arco e flecha (de Adrian Henri Vital Van Emelen), Baiana (autoria desconhecida) e Herói da Guerra do Paraguai (de Adrian Henri Vital Van Emelen). 

As apresentações contaram com a participação de atores, cantores e coro, além de comentaristas convidados e do público presente. As leituras-manifesto foram narradas e cantadas, contrapondo textos e documentos históricos, relatos, cartas, notícias de jornal, poesias, trechos de livros e evocações que remontaram aos territórios e seus sujeitos, nos três primeiros séculos da colonização. 

O Documentário

A linguagem audiovisual de Territórios de Resistência: Florestanias, Sertanias, Ribeirias mantém as estruturas poéticas das experimentações cênicas apresentadas durante a ocupação do Museu em 2019, servindo-se de parte dos registros das apresentações, mas incorporando outros materiais do acervo do Museu, como fotografias, pinturas, mapas e vídeos de outros acervos, além de comentários e entrevistas de pensadores, pesquisadores e lideranças indígenas e religiosas.

Integram o documentário as vozes de Claudia Truká (PE), Jerá Guarani (SP), Kota Mulanji (SP), Ailton Krenak (MG), Janja Araujo e Cacique Babau (BA), Fernanda Kaingang (RS), Leda Maria Martins (MG), Marcia Mura (RO), Sandra Benites (MS), Nego Bispo (PI), entre outras 

“A seleção e captação das entrevistas acompanharam a produção do documentário desde o início e, mesmo com as restrições da pandemia, conseguimos contemplar a pluralidades de vozes, tão importante para o projeto desde a Ocupação no Museu, com uma representatividade geográfica, que passa pelos mais diversos estados, de sul a norte do Brasil”, comenta Yghor Boy que, juntamente com Maria Thaís, assina a direção e a edição.

A construção dos roteiros manteve a forma tripartida que caracterizava as Leituras Cênicas, e foi coordenada pelo dramaturgo e roteirista Luís Alberto de Abreu, também responsável pelo roteiro do prólogo – Narrativas em Disputa – que inexistia na versão cênica. Murilo De Paula, Dione Carlos e Felipe de Moraes foram responsáveis, respectivamente, pelo primeiro tratamento do roteiro da tríade Florestanias, Sertanias, Ribeirias, criado a partir dos registros e materiais que integravam as experimentações cênicas e do diálogo com a equipe de criação. 

No roteiro final, concebido por Maria Thais e Yghor Boy, com a colaboração do assistente de direção Ametonyo Silva, e de Murilo De Paula em Florestanias, a noção de uma polifonia narrativa orienta a composição. As muitas vozes presentes ora se complementam, ora se contradizem, ora criam outros caminhos discursivos e imagéticos sobre as temáticas e os modos de viver que se apresentam nesses territórios de resistência.

“A construção dramatúrgica partiu do entrelaçamento entre texto, música e imagem que, na Ocupação, preenchia um espaço territorial concreto, o saguão do Museu, com a intenção de fazer ecoar algumas vozes que dificilmente escutaríamos num espaço como aquele. Uma escolha importante foi compor junto com os textos criados pelos dramaturgos e as referências propostas por eles – como notícias de jornais, leis, poesias etc., – outras narrativas orais, através de falas de pessoas e dos textos de músicas oriundas de manifestações e culturas tradicionais, que se mantêm viva na memória dos povos que habitam esses territórios”, explica a diretora Maria Thaís

O processo de criação do documentário manteve também as dinâmicas criativas que originaram o projeto, contando ainda com a participação de Morris Picciotto (trilha sonora), Eduardo Joly, Flora Rouanet e Antonio Venancio (pesquisa iconográfica), Adriana Scapim (licenciamentos musicais), Luiza Nadalutti (direção de arte), Solange Ferraz de Lima (consultoria histórica) e Géssica Arjona (direção de produção).

Narrativas em Disputa – prólogo 

Narrativas em Disputa apresenta a noção de território a partir do Museu do Ipiranga, lugar que dá origem ao projeto e que se enuncia como um espaço de disputa simbólica e territorial, fazendo ecoar a pergunta que orientava as atividades da Ocupação: Que museu queremos em 2022? Por outro lado, o prólogo explicita duas perspectivas que estarão presentes ao longo de todo documentário, tensionando-as: dos povos e comunidades que concebem o território como abrigo, lugar de afeto, campo simbólico, que assegura seus modos de existir e, do outro lado, aquela que revela a incessante exploração do território, visto apenas como recurso material.

Florestanias 

O retrato Índio com arco e flecha, pintado por Adrien Henri Vital Van Emelen, invade o mármore do Museu e reivindica sua existência e a pluralidade de suas vozes. A florestania, como modo de vida dos diversos povos e seres que habitavam e habitam os territórios que hoje constituem o território nacional, remete ao longo processo de colonização, dos conflitos pela terra, do processo de extermínio e, ao mesmo tempo, de resistência – e re-existência – dos povos originários.

Sertanias 

A partir do quadro Baiana, de autoria desconhecida, destacam-se as entradas no sertão – o interior, o que está dentro, longe do mar – onde o processo colonial e a escravatura fincaram ferramentas de exploração seculares, principalmente, por meio da mineração. Territórios, onde a resistência e os modos de existência e de reinvenção dos povos em diáspora surgem a partir das lideranças femininas, das Irmandades Negras, dos terreiros e/ou lugares que constituíam, e ainda constituem, um espaço social, político e religioso, autônomo. 

Ribeirias 

A partir da pintura Herói da Guerra do Paraguai de Van Emelen, uma viagem pelos rios Paraguai, São Francisco, Amazonas e Tietê evoca as disputas territoriais para a demarcação de fronteiras e as águas marcadas pelo sangue que constantemente escorre, desde a Guerra do Paraguai (1865-1870) às recentes explorações pelas grandes hidrelétricas. Se na Guerra do Paraguai, o governo e a elite brasileira forjaram uma identidade nacional e a instauração de um estado-nação, os seus combatentes – homens indígenas sob a promessa de receber as terras que lhes eram de direito, ou homens escravizados, mandados à batalha por seus senhores, com a promessa de liberdade, caso sobrevivessem – foram involuntariamente coagidos a lutar. Por outro lado, as populações que habitam as margens dos rios – formada por diversos povos originários, quilombolas, ribeirinhos – demonstram que o fluir das águas é potência poética, de revoltas e resistências. 

Territórios de Resistência – Florestanias, Sertanias, Ribeirias

Lançamento: 30 de setembro de 2021, quinta-feira, às 19h

Assista em: sescsp.org.br/territoriosderesistencia e sesctv.org.br/resistencia

Direção e Edição: Maria Thaís e Yghor Boy

Roteiros: Narrativas em Disputa e supervisão geral: Luís Alberto de Abreu / Florestanias: Murilo De Paula / Sertanias: Dione Carlos / Ribeirias: Felipe de Moraes / Tratamento Final: Maria Thaís e Yghor Boy, com a colaboração do assistente de direção Ametonyo Silva

Documentário / 105 min / Livre

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